23.5.05

Post Intimista III

Conseguimos sair.A minha mãe tinha perdido os óculos via mal, e à nossa frente um descampado enorme, tínhamos àgua pelos tornozelos e mal conseguíamos andar por causa da força dos ventos. De repente ficamos abrigadas atrás dum camião de bombeiros, sem ver mais nínguém, sem saber se havia mortos ou não havia mortos, sem saber se havia pessoas queimadas ou não, se era preciso ajuda ou não, eu e a minha mãe não trocamos palavra. Eu funcionava em piloto automático, tinha desligado as minhas emoções tava apenas preocupada em sobreviver. Nunca mais olhamos para trás para ver por onde tínhamos conseguido sair ou como tinha ficado o avião. E sem saber como estávamos dentro dum autocarro que nos levou desde o carro de bombeiros a uma sala do aeroporto. Aí foi como entrar numa sala dos horrores. Aqui sim ouviam-se choros deseperados, os gritos das pessoas em busca duma explicação, viam-se os rostos transfigurados.
Resolvi deambular pela sala e guardei uma imagem na minha cabeça que nunca mais me hei-de esquecer: uma hospedeira numa maca aos gritos cheia de dores, olhei para ela e vi que estava practicamente com o corpo todo queimado, vi as bolhas que ela tinha nas pernas das queimaduras e quiz sair imediatamente dali. Não me permiti ir abaixo, não podia, tinha sobrevivido e desenvolvi uma defesa que foi tentar ajudar no que fosse preciso. Eu e a minha mãe íamos integradas numa excursão a maior parte dos nossos companheiros não falavam outra língua que o português, heis senão quando eu descobri a minha escapatória e desatei a servir de tradutora de inglês.

1 Comments:

At segunda mai. 23, 04:12:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

impressionante! obrigado pela coragem de escreveres e mostrares a quem te quiser ler, a descrição deste acidente na primeira pessoa.
parabéns! zé

 

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